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As páginas do tempo

Outubro 24, 2007 por materialdidactico

Luísa Ducla Soares
Revista Cais
Agosto 2006

As páginas do tempo

É o tempo que eu folheio no meu dia a dia, trabalhando na Biblioteca Nacional, onde se guarda a memória de uma Nação.

Falam-me os velhos manuscritos, toscos e enrolados. Cantam as iluminuras tão brilhantes e límpidas que parecem acabadas de pintar. Eram então os livros obras únicas e raras, que mãos pacientes iam escrevendo na clausura dos mosteiros.

Abro de seguida os volumes impressos dos alvores da Renascença, quando a cultura começou a democratizar-se com os caracteres tipo gráficos de Gutenberg. Alguns eram escritos em latim, a língua erudita universal, outros em português, linguagem do povo.

Cada um traz um pedaço de história, uma história perdida no tempo agarrada às suas páginas e imagino os homens que os sonharam. Pego nos Lusíadas e Camões desprende-se das letras e ganha corpo na minha sala, narra-me em verso heróico a história de Portugal. Outros me contam crueldades da Inquisição, dramas de amores proibidos, naufrágios e tormentas.

Olho as gravuras do terramoto de Lisboa, revivo os gritos soterrados, o pavor das chamas, a morte azul sob as águas invasoras do Tejo.

Pego depois nos primeiros jornais, pequenas gazetas cheias de curiosidades, que davam, como novidades, notícias de factos ocorridos havia dias, mesmo semanas. Era então tudo lento e pausado, as novas chegavam com navios e diligências.

Hoje, quando o tempo corre frenético e já não se mede pela nossa respiração nem sequer pelos toques do telégrafo, hoje tenho sempre um computador à minha frente e é ele a minha ligação instantânea a todo o mundo, à aldeia global de que nós somos todos teoricamente cidadãos, apenas teoricamente pois mais de metade dos portugueses é incapaz de se entender com a informática.

O meu trabalho consiste em responder a investigadores dos quatro cantos da Terra sobre questões que têm a ver com livros e factos de todas as épocas. Assim, vivo viajando constantemente no tempo, visitando quantos nele viveram e vivem, compartilhando suas aventuras e desventuras, desvendando seus sentimentos e saberes, seus projectos e realizações. Debruço-me sobre a arte, a ciência, a filosofia. Sobre a natureza humana, sobre as leis, a guerra e a paz, sobre tudo.

Tantas páginas desfolhadas, de tempos tão diversos, me ensinaram contudo que, no âmago, o Homem continua igual, apesar dos avanços das tecnologias, das modas, da reviravolta que cada século tem trazido.

Saio da biblioteca para a rua e encontro um aventureiro que podia ser Fernão Mendes Pinto, uns namorados que lembram Pedro e Inês, um jovem estudante com ares de Einstein. Os craques da bola jogam com o fervor de cruzados e os adeptos fazem do futebol a sua religião. Há quem acuse, como um prelado do Santo Ofício, aqueles que pensam de maneira diferente. Os personagens das comédias de Gil Vicente sentam- se no meu autocarro e transformam a viagem num espectáculo. Já não há a roda onde eram largadas crianças indesejadas mas Portugal mantém uma triste liderança nos maus tratos a menores.

Páginas, páginas do tempo…

Publicado em educadores, educação, escola, família, histórias, imaginação, pedagogia, prazer de ler, psicologia, sociedade, sociologia | No Comments Yet

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