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Pequenos vagabundos

Setembro 12, 2007 por materialdidactico

Pequenos vagabundos

Pequenos Vagabundos é a história das aventuras vividas por três jovens que a pobreza obriga a deixar a sua aldeia, pedindo esmola de terra em terra. Numa longa viagem pela Itália, Francesco, Domenico e Anna vivem uma profunda e dramática esperiência humana.

— Não se aproximem, são ciganos — continuava a gritar a garota.

— Aquela parva — murmurou Anna —, se lhe conseguisse apanhar as tranças mostrava-lhe quem é que são os ciganos.

— Mas é uma bela escola! — disse Francesco.

Muitas crianças já se tinham aproximado da cancela, intrigadas pelo aspecto dos três pequenos vagabundos. E atrás delas, tranquila e séria, uma senhora idosa, com os cabelos grisalhos e um xaile preto pelas costas. Os alunos deixaram-na passar, e alguns dos mais pequenos penduraram-se-lhe no braço, para ganhar coragem.

— Bom dia — disse a professora com um ligeiro sorriso. — Vêm de longe?

Os três não responderam, mas Anna arriscou também um sorriso.

— Não são ciganos — explicava a professora aos seus alunos —, são meninos que vêm do Sul, se calhar a aldeia deles foi destruída pela guerra.

As coisas não eram bem assim, mas Anna fez na mesma que sim, para agradar à professora; e no fundo não era muito diferente da realidade.

— Como se chamam? — perguntou a senhora.

Desta vez Anna respondeu pelos três, mas Francesco e Domenico também se sentiram melhor: nunca ninguém lhes tinha falado com tanta doçura, nem sequer a mãe, que estava sempre cansada e doente, e tinha demasiadas dores e preocupações na cabeça.

— Eu andei na escola — disse Anna. — Fiz a primeira classe. Eles não. Eles nunca foram à escola.

— E ainda sabes ler? — perguntou a professora.

— Acho que sim. Em casa tenho todos os cadernos e o livro de leitura. Gostava de andar na escola. Mas depois já não tinha sapatos e bata e tinha de ajudar a tia com as crianças pequenas, e por isso nunca mais lá voltei.

Alguns dos alunos riram-se apontando Francesco e Domenico:

— Nunca foram à escola, não sabem ler nem escrever, são mesmo burros!

A professora abanou a cabeça.

— Não têm culpa. Se tivessem podido ir tinham aprendido, talvez melhor do que vocês. Não é verdade? — e inclinou-se para Francesco, que fez que sim com a cabeça.

— Não tens língua?

— Tenho — disse Francesco, e riu-se.

— Não gostavas de aprender a ler?

— Bom, gostava, mas como?

— A Anna pode ajudar-te. Será a tua professora.

Anna desatou a rir.

— Que rica professora… Nem sequer tenho a certeza de me lembrar de tudo.

— Vou dar-vos uma cartilha — disse a professora.

— Se o Albino a vê — disse Domenico —, deita-a para a fogueira.

— Quem é o Albino?

Francesco contou em poucas palavras. Quando acabou, viu com espanto que alguns dos alunos tinham lágrimas nos olhos. A sua história era assim tão dolorosa? Tudo o que lhe tinha acontecido a ele, a Anna e a Domenico lhe parecia natural. Agora, diante daquelas crianças que tinham uma casa, uma mãe e uma escola limpa, um quintal, uma professora amável e boa, não sentiu inveja nem dor mas – estranhamente – um certo orgulho.

“Eles choram ao ouvir contar estas coisas”, pensou, “e nós suportámo-las sem chorar.”

— Temos de nos ir embora — disse Domenico. Durante todo o tempo que tinham estado ali tinha mantido enfiado na algibeira do casaco o seu bracinho mutilado, conforme o seu velho hábito. A professora devia ter notado alguma coisa mas não disse nada, apenas o acariciou docemente no cabelo. E ele, que não suportava isto de ninguém, desta vez não se ofendeu.

A professora mandou buscar uma cartilha e deu-a a Francesco, que nem sequer ousou folheá-la.

— Pronto, agora têm mais um amigo — disse a professora —, agora são quatro, com a cartilha.

— Mostra-ma — disse Anna.

E abriu-a com delicadeza: as páginas a cores, as grandes letras dispostas em filas irregulares e ao mesmo tempo ordenadas, despertaram-lhe de repente velhas recordações da escola. Seguiu as linhas com olhos impacientes, soletrando com os lábios, e apercebeu-se com espanto de que sabia ler correntemente: as palavras, que inicialmente lhe dançavam à frente sem nada lhe dizer, revelaram-lhe o seu significado… Mar, ramo, terra, mamã… Sem se aperceber disso, começou a ler em voz alta:

— Ramo de amoras, ramo de amor… — E riu-se excitada: — Sei ler, ouviu?

— Hás-de ser uma boa professora. Também precisam de um caderno e de um lápis.

Um dos alunos afastou-se e voltou com um pequeno caderno quadriculado e um lápis sem bico.

— Toma estes — disse. E quase para se desculpar acrescentou: — Depois logo digo à minha mãe.

Quando os três miúdos se foram embora, todos os alunos se apinharam junto à cancela e lhes disseram adeus agitando as mãos e gritando. A professora, de pé no meio deles, com os braços cruzados, apertados debaixo do xaile, continuou a sorrir durante um bocado.

O á-bê-cê de Francesco

Queridos rapazes e raparigas, a diferença entre esta história e um grande romance de aventuras reside no facto de que aqui é tudo verdade, desde a primeira palavra até à última: Anna, Francesco e Domenico, os três pequenos vagabundos entregues pelos seus parentes a um empresário que os levou a pedir esmola pela Itália, existiram realmente, e ainda existem crianças como eles. Ainda existem famílias que não sabem como matar a fome aos seus filhos. Há rapazes que têm por escola somente a rua: uma escola dura, terrível. Eu conheci rapazes que atravessaram a Itália com uma gaiola com um papagaio ao pescoço, ou cantando, ao som de um acordeão, ou vendendo bilhetinhos como sina. Eles não odiavam os seus pais por isso: percebiam muito bem por que tinham sido obrigados a abandonar a sua pobre casa, a sua terra miserável.

Alguns destes rapazes estragaram-se: ninguém vive na rua sem se sujar com a sua lama. Alguns deles tomaram-se pequenos ladrões, ou pior. Mas outros caminharam sem se sujar: permaneceram bons e tomaram-se fortes e corajosos. Nesta história não quis contar-vos aventuras inacreditáveis, mas como Anna, Francesco e Domenico conquistaram a sua força e, como eles, dia após dia, se tornaram homens. As aventuras dos piratas são mais coloridas e fascinantes, sem dúvida: mas a aventura de se tornar homem é mais bonita, porque é mais verdadeira.

A cartilha que a professora da aldeia tinha oferecido a Francesco ia no seu bornal. Quando, numa pausa da viagem, na praia ou à sombra de uma árvore, Francesco a tirava com delicadeza e, pondo-a no chão, começava a folheá-la, toda a miséria que rodeava os rapazes desaparecia e um mundo novo, desconhecido e maravilhoso, se abria à sua volta.

Domenico contentava-se com ver as ilustrações: a bandeira, uma flor, um navio. Nunca se cansava de as ver: conhecia todos os mais pequenos pormenores, mas pareciam-lhe sempre diferentes, mais belas.

Francesco copiava no pequeno caderno as letras do alfabeto e as primeiras, simples, palavras de uma só sílaba. Anna não era uma professora paciente. Ela própria mal sabia ler, e também nas suas mãos o lápis se tomava pesado como um maço, mas parecia-lhe que Francesco levava demasiado tempo a aprender.

— És burro — dizia — e burro hás-de ficar. É preciso fazer assim, olha.

Mas Francesco não deixava que ela lhe tirasse o lápis.

— Quero experimentar. Deixa-me experimentar.

Os «grandes» da caravana não lhes ligavam. Só o tio Filippo, às vezes, se punha de pé atrás deles, com o velho cachimbo na boca. O tio Filippo também nunca tinha ido à escola.

— A minha caneta foi a enxada — dizia, mas sem se rir —, aprendi a escrever sulcos bem direitos na terra, mas depois tivemos de vender a terra.

E cuspia, ao lembrar-se da terra perdida.

Os outros rapazes da caravana também não se interessavam pela cartilha. O Albino levava-os sempre consigo: eram mais obedientes e dóceis com ele. Durante as marchas Francesco esforçava-se por reconhecer as letras que tinha estudado nos letreiros da estrada. Ficava parado a olhá-los durante muitos minutos, até que do embrenhado das letras uma saía e corria directamente para os seus olhos.

— Aquele é um O — dizia — e aquele é um T.

Anna soletrava então toda a palavra. Mas foi um grande dia quando Francesco conseguiu sozinho ler um letreiro todo. Pôs-se a dançar e não parava de gritar a palavra maravilhosa:

— Molinella! Molinella!

Tinham deixado o mar havia já alguns dias, e vagueavam de aldeia em aldeia na planície emiliana. Na realidade, Francesco lia «Molinela» só com um l, e quando o tio Filippo lhe disse o nome exacto da aldeia não queria ceder:

— Você não sabe ler — dizia, excitado —, mas eu sei.

— Há tantas coisas que não se aprendem nos livros — disse o tio Filippo —, não te esqueças, professor.

Desde aquele dia o tio Filippo começou a chamá-lo, por brincadeira, «o professor».

— Olá, como vais, professor? Como está hoje o alfabeto?

— Sempre igual, tio Filippo. Sabe, não falta muito, vou escrever para casa.

— Mas a tua mãe não sabe ler.

— Não tem importância. Fica contente na mesma. Há-de pedir ao Miguel, o ferro-velho, que lha leia.

Naquela mesma noite concretizou o seu projecto, com a ajuda de Anna. Na verdade, algumas palavras foram escritas por Anna, e algumas outras copiaram-nas directamente da cartilha, mesmo que não tivessem nada a ver com a conversa. Por exemplo, Francesco quis a todo o custo escrever na folha o nome de todas as terras que tinham atravessado desde que tinha começado a ler os letreiros das estradas.

Devia ter muitos erros, mas quando a carta ficou acabada – duas páginas inteiras de palavras – ficaram os três a olhar para ela sem fôlego, durante um bom bocado.

Dizia ela (mas vou transcrevê-la sem os erros):

«Querida mãe, nós estamos bem e esperamos que a mãe também, mais o Peppe e a Rina. O trabalho não é muito e a comida chega. Não se preocupe connosco. Quando voltarmos para casa iremos ocupar a terra e teremos de que viver todos juntos. A Anna ensinou-me a escrever e a ler. O Domenico ainda quer a mão nova e, se tivermos dinheiro, vamos comprá-la. Estas aldeias são mais bonitas do que as nossas e os camponeses ajudam-nos. Que esteja de saúde e muitos cumprimentos e beijos dos seus filhos

Francesco e Domenico»

Debaixo das assinaturas estavam as palavras «ramo, navio, barco, bandeira», e os nomes de seis ou sete terras.

— Ela vai perceber por que é que os escrevemos, não duvidem — garantiu Francesco.

Meteu a carta no bornal, enquanto Anna corria a ajudar a tia Teresa a preparar o jantar.

— Amanhã — disse Francesco — peço a um camponês que me ajude a escrever o envelope e a enviá-la.

Naquela noite dormiu com a cabeça apoiada no bornal e parecia-lhe que dele saía um estranho calor. Acordou várias vezes com medo que alguém lhe roubasse a carta, e de cada vez abriu o bornal para ver se continuava no seu lugar.

Na manhã seguinte enviou-a. Naquela tarde chegaram a Ferrara.

Gianni Rodari

Pequenos vagabundos

Lisboa, Editorial Caminho, 1986

Excertos adaptados

Publicado em comportamentos, crianças, descoberta da leitura, educação, escola, família, histórias, importância da leitura, pedagogia, prazer de ler, psicologia, sociedade, sociologia, sonho | Sem comentários ainda

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