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Caso 2: Neste caso, trata-se de um grupo; concretamente, de um grupo de jovens desportistas que formam uma equipa profissional. Sou chamado pelo técnico, porque ele detectou que o baixo desempenho da equipa se deve fundamentalmente mais a questões anímicas do que a aspectos ou falhas técnicas ou tácticas. Numa entrevista com a equipa, detectam-se sérios problemas no tocante à motivação, particularmente associados a uma auto-estima muito baixa, um limiar muito baixo de tolerância à frustração, e uma vivência de medo no que respeita ao confronto com o adversário, que bloqueava sensivelmente os potenciais técnicos dos jogadores. Resumindo, a vivência da equipa era a seguinte: considerava-se muito fraca e, no momento de enfrentar a equipa rival, não confiava nos próprios recursos.
Numa das entrevistas, trabalhei com um conto de Mamerto Menapace que se chama Morrer num bando de perus. A narrativa é uma versão semelhante à tradicional história do patinho feio, mas conta a história de um condor que é criado por uma perua choca e que cresce “no bando de perus”, pensando que é um pequeno peru, e olhando com admiração o voo dos condores nas alturas. Assim, acaba “por morrer no meio do bando de perus”, quando na realidade havia nascido para ser aquilo que tanto admirava. Faz-se, evidentemente, um jogo de palavras, tirando partido da contundência das expressões “viver no meio do bando de perus” e “morrer no meio do bando de perus”. O director técnico da equipa havia-me adiantado que se tratava de um grupo com o qual era difícil discutir pormenores e manter reuniões de reflexão que durassem mais de 25 a 30 minutos. São rapazes que não estão habituados a isso: ao fim de 15 ou 20 minutos, dispersam-se e ficam muito inquietos, foi a apreciação com a qual antecipou o meu encontro com a equipa. Existe um preconceito quanto a alguns ambientes de desportistas profissionais, no sentido de que carecem de cultura, e também de interesse em adquiri-la. Mesmo assim, levou-se por diante a experiência, decerto inédita para este grupo, de os reunir nos momentos anteriores a uma partida e ler-lhes um conto. A princípio, quando iniciámos a actividade, houve algumas brincadeiras entre eles e uma certa resistência diante desta iniciativa, que parecia um “dever de escola” ou uma “infantilidade”. Mas, depois de iniciada, todos a aceitaram e responderam ao apelo com atenção e sentido de participação numa actividade que acabou por estender-se ao longo de 80 minutos. Terminada a leitura, houve um momento de silêncio e logo se iniciou a reflexão, breve, sobre a semelhança da narrativa com a sua própria história. Este conto tornou-se para a equipa uma espécie de palavra de ordem tácita ou de “bordão”: Não morrer no meio do bando de perus. A partir dali, começaram a aparecer diferentes elementos que rapidamente permitiram ao grupo prosseguir o trabalho sobre essas questões, modificar a sua atitude e renovar a disposição para o jogo, levando a uma sensível melhoria no seu rendimento. Também neste caso a biblioterapia abriu terrenos e estimulou o grupo de maneira efectiva, de modo que pudesse protagonizar uma modificação necessária para o seu crescimento individual e grupal.
Caso 3: Trata-se da utilização da biblioterapia num workshop de convivência. Ele faz parte de uma série de actividades que são realizadas com um grupo de aposentados recentes e pessoas que estão próximas da aposentação. Eles receberam, através de diferentes palestras e apresentações, assessoria previdenciária, legal e financeira. Mas ainda não enfrentaram o mais importante para eles neste momento: prepararem-se emocionalmente para viverem como aposentados, para encararem uma crise vital tão importante como a que surge nesta etapa da vida. Evidentemente, a chave para superar – ou começar a fazê-lo – o pico crítico (e também para o prevenir) é poder responder à pergunta: qual o sentido da vida a partir desse momento? E a resposta não pode ser obtida a partir da assessoria previdenciária, legal e financeira. É assim que se pretende mobilizar o grupo em torno da questão do sentido da vida, na nova etapa que para ele se inicia. Organiza-se este workshop em torno da leitura e posterior elaboração de um conto, Quebra-cabeças, escrito especialmente para ser utilizado em biblioterapia.
Reúne-se o grupo no salão onde habitualmente se realiza o ciclo de actividades. Os membros estão dispostos em círculo e a tarefa é-lhes apresentada. A ordem recebida indica que se trabalhará sobre a leitura de uma história que reflecte a atitude de diversas personagens diante de uma determinada situação. Eles deverão ouvir a história com atenção. Lê-se então Quebra-cabeças. Terminada a leitura, faz-se um momento de silêncio, e pede-se que resumam numa frase as reflexões que a história suscitou. Recolhem-se os cartões com as frases que escreveram, que são em seguida repartidas entre os participantes. Cada um receberá então a frase escrita por outro, desconhecendo o autor. Se algum deles, por acaso, recebesse a sua própria frase, deveria devolvê-la e pegar noutra. Dá-se um momento para que cada um leia interiormente e procure compreender a frase que recebeu. Posteriormente, inicia-se a reflexão em grupo em torno das frases e das reflexões que forem surgindo.
A mobilização gerada pela história reflecte-se naquelas frases que manifestam temores, fantasias, decepções, ilusões, projectos, expectativas, desesperança, desorientação, negação, depressão, optimismo… isto é, um leque de alternativas que, no seu conjunto, revelam o panorama complexo que o aposentado enfrenta. A elaboração em grupo, a possibilidade de empregar essas frases num âmbito diferente, apresenta-se como uma boa oportunidade para começar a encarar esse panorama com maior certeza. A mobilização surgiu a partir da introspecção propiciada pela leitura do conto. Conseguimos identificar-nos com as personagens e descobrimos diferentes opções para encarnar ou interpretar os caminhos de resolução da crise que estava a ser vivida.
Poderíamos citar muitíssimos casos de aplicação da biblioterapia, tanto na modalidade individual como na de grupo, tanto na prática psicoterapêutica como na psicoprofilática.
E, do mesmo modo, é válida a utilização deste recurso na prática docente. Muitas vezes acontece que certas ideias teóricas que o aluno não consegue assimilar, podem ser integradas a partir de uma narrativa de ficção, que mostra de um modo mais imediato o seu conteúdo. Refiro-me à utilização do conto de Edgar Allan Poe, William Wilson, como excelente recurso para estudar e compreender os conceitos: consciência/inconsciência, por exemplo.
Segue: Para uma biblioterapia III
Claudio García Pintos
A Logoterapia em Contos
S. Paulo, Paulus, 1999
Excertos adaptados
[1] Frankl, Viktor E., Psicoterapia y Humanismo , México, Fondo de Cultura Económica, 1984.
[2] Trata-se de Luiz Falcão, um carioca que vive em Florianópolis, autor de numerosas peças.
[3] Papagaio de papel.