Marc Soriano
Guide de Littérature pour La Jeunesse
Paris, Delagrave, 2002
Excertos adaptados
A leitura, esse milagre que nos é familiar
Ainda há menos de cinco minutos que eu era eu mesmo. Tinha a minha idade e as minhas preocupações profissionais e familiares, próprias do meu século. De repente, rejuvenesci 150 anos e tornei-me Lucien Leuwen, um jovem tenente do tempo de Luís Filipe.
Foi o enredo que me cativou ou terá sido o tom do narrador? Seja como for, eis-me de novo (de novo, porque já conheço o romance) enfeitiçado por Stendhal. Impaciento-me com o cavalo que o derruba, enterneço-me com o rosto de Madame de Chasteller, em suma, comovo-me com uma personagem que não me é nada e que sei que nem sequer existe.
Ao mesmo tempo, continuo a ser quem sou. Só saí de mim na medida em que me quis tornar outro, um outro que eu queria secretamente ser. Adiro a uma ilusão que sei poder controlar. Sei que as lágrimas que derramo não são motivo de preocupação e que posso sorrir quando quiser.
Este prodígio, cujas características exteriores são uma distracção e uma atenção extremas, é um dos mais raros que a cultura alguma vez inventou e não se limita à leitura. Encontramo-lo em todas as satisfações de ordem estética. No entanto, o livro parece ser o meio que nos proporciona estas sensações de uma forma mais completa e satisfatória.
Podemos questionar-nos sobre a pertinência deste tipo de reflexão no que diz respeito à literatura juvenil, já que há críticos e historiadores que raramente evocam a questão da identificação, e muito menos o fazem em termos psicanalíticos. A maior parte dos escritores de romances para a infância e juventude acha evidente que as crianças e os jovens se identifiquem com as crianças e os jovens cujas aventuras lêem avidamente. Mas será assim tão evidente?
A identificação e as formas que assume
A identificação não é a justaposição ou a fusão de dois seres semelhantes. É, antes, um processo em que dois seres diferentes se esforçam por se assemelhar. A identificação em geral não existe. Existem formas diferentes, e por vezes contraditórias, de identificação. Dependem da idade da pessoa, do modelo com o qual ela se quer identificar, e do meio ao qual pertence. A única constante destas variáveis é o nosso poder de identificação, uma capacidade que caracteriza a nossa espécie. A comunhão que a leitura pressupõe repousa sobre a compreensão dos signos mas permanece, antes de mais, uma relação de ordem afectiva.
A identificação e a pesquisa científica
Toda e qualquer identificação pressupõem a existência de factores individuais: a estrutura familiar, atavismos, situações traumatizantes que marcaram a criança, em suma, a sua história. No entanto, os factores individuais organizam-se em estruturas iterativas. Assim, sempre que há desvios a uma dada norma reactiva, os médicos podem determinar melhor o que perturba a criança.
A ilustração do conto dos Grimm O Lobo e os Cabritinhos, que apareceu no decurso de um sonho de um paciente de Freud, permitiu a este reconstituir a “cena original” de O Homem e os Lobos . Um objecto concreto de identificação não deve impedir-nos de ver que a identificação, enquanto processo, é uma função subjacente ao nosso psiquismo. Como tem a ver com os mecanismos fundamentais de integração da criança na sociedade, não se sujeita a modas de uma época determinada e isso facilita uma análise mais objectiva das situações.
Os meios infantis homogéneos: heróis-guias e heróis-modelos
Há livros que eliminam as personagens adultas e que só apresentam personagens infantis, com o argumento de que os leitores só se identificam com aqueles que lhes são próximos em idade. Obras exemplificativas disto são os romances de Enyd Blyton. Talvez a sociedade infantil homogénea não passe de um mito, mas é um facto que as crianças do nosso tempo se aglutinam em “bandos” e que há crianças cuja falta de segurança pode ser compensada pela pertença a um grupo.
Continuação: O problema do herói II – Será que juventude precisa de heróis?